terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O que nos dizem os rankings de inovação sobre o Brasil e o mundo?

"Rankings de inovação tendem a ficar cada vez mais comuns e nem sempre é recomendável que seus resultados sejam imediatamente aceitos como expressões únicas de verdades incontestáveis"

Ronaldo Mota é secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério de Ciência e Tecnologia e professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria. Foi secretário de Educação Superior e de Educação a Distância do Ministério da Educação. Artigo enviado pelo autor para o "JC e-mail":

A recomendável sabedoria ao lidar com rankings é manter a necessária desconfiança, inerente aos seus limites naturais. São indicadores e números tentando captar essências, nem sempre com pleno sucesso. São importantes fotografias de algum tempo passado pretendendo explicar o filme do futuro. Mesmo assim, por outro lado, é desaconselhável desconsiderar esses rankings ou menosprezá-los, dado que podem ser fontes interessantes de análise, às vezes imprescindíveis para formulação adequada de políticas públicas.

Inovação tende a ser cada vez mais um item fundamental para medir o atual estágio de cada país ou região e especialmente útil para apontar possibilidades futuras e potenciais efetivos de desenvolvimento. Assim, rankings de inovação tendem a ficar cada vez mais comuns e nem sempre é recomendável que seus resultados sejam imediatamente aceitos como expressões únicas de verdades incontestáveis. Até mesmo porque, por ser conceito relativamente recente, os parâmetros da inovação são menos padronizados e ainda em processo de consolidação.

Em geral inovação e inovação tecnológica em particular implicam em agregação de qualidade e são requisitos essenciais para uma economia competitiva, próspera e sustentável, com melhores empregos e salários, e menor dependência de produtos e componentes importados e menos royalties pagos ao exterior.

Inovação é um conceito correlacionado com pesquisa e desenvolvimento empresarial, porém distinto e mais amplo. Inovação implica em tecnologia, máquinas e equipamentos, mas vai além, contemplando também pequenas mudanças incrementais, novas funcionalidades, bem como melhorias na gestão ou novos modelos de negócios, associados à conquista ou criação de novos mercados.

Em um processo quase darwiniano, inovação em sentido amplo vem selecionando as empresas mais aptas. Especialmente para aquelas empresas com pretensões de mercados globais, a competição impõe inovação, em algum nível, como condição imprescindível.

Perceber a complexidade da inovação não resolve o problema, mas não ter essa sensibilidade prejudica muito a definição de políticas eficientes e eficazes para o setor. Assim, um ambiente inovativo nas empresas é favorecido pela existência no país de ciência avançada e pela capacidade regional de formar recursos humanos de ponta, mesmo que estas últimas atividades tenham seus centros de atividades na academia.

Favorecer inovação não significa que seja suficiente ter boa ciência e formação de recursos humanos. O estímulo às atividades de risco (inovação também é risco) faz parte do jogo que conecta a inovação com a oferta ao mercado de produtos, processos e novas funcionalidades. Viabilizar bons ambientes de negócios demanda, adicionalmente, um conjunto não simples de externalidades positivas.

O que parece claro é que há poucos atalhos para, sem produção de conhecimento, conseguir estimular inovação nas empresas. Não é impossível ocorrer inovação nas empresas sem produção de conhecimento no país e recursos humanos de ponta na região, mas é evento tão raro que quase fortuito. Portanto, para propiciar inovação é importante que esses dois elementos estejam presentes simultaneamente: cooperação entre empresas e a academia, bem como estímulo e suporte ao risco privado.

Em suma, talvez o ranking específico possa ter adotado indicadores que tenham captado menos alguns elementos positivos da realidade brasileira, mas nada que altere a essência, ou seja, que somos ainda um país carente em termos de inovação. O Brasil tem exemplos muito positivos e ações elogiáveis na área de inovação, mas nada que retire a marca de ser, predominantemente, um país que aprendeu a fazer ciência, produzir conhecimentos de ponta e formar recursos humanos do mais alto nível, sem ainda resultar na desejável transferência, no mesmo ritmo, desses conhecimentos ao setor empresarial.

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Fonte: JC e-mail 3921
Data: 04/01/2010