sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sim, as pessoas continuam lendo. Mas agora é socialmente

"Sim, estamos um pouco menos concentrados, graças ao estímulo elétrico da tela. Sim, estamos lendo narrativas e discussões um pouco menos longas do que tínhamos há 50 anos. Estamos levemente menos concentrados e exponencialmente mais conectados. Essa é uma troca que todos nós deveríamos estar felizes por fazer."

A análise é de Steven Johnson, escritor e empresário. Seu novo livro, "Where Good Ideas Come From: The Natural History of Innovation" [De onde vêm as boas idéias: A História Natural da Inovação], será publicado em outubro. O artigo foi publicado no jornal The New York Times, 18-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"O ponto central dos livros é o combate à solidão", observa David Foster Wallace no início de "Although of Course You End Up Becoming Yourself", o livro-entrevista recém publicado por David Lipsky.

Se acontecer de você estar lendo um livro no Kindle da Amazon, a observação de Wallace tem uma ênfase extra: um sublinhado pontilhado que corre embaixo da frase. Não porque Wallace ou Lipsky consideraram que essa parte merecia ser destacada, mas por causa de uma dúzia de outros leitores que destacaram essa passagem em seus Kindles, tornando-o um dos trechos mais "populares" do livro.

A Amazon chama esse novo recurso de "destaques populares" [popular highlights]. Pode soar bastante inócuo, mas indica mudanças ainda maiores que estão por vir.

Embora esse recurso possa ser desabilitado pelo usuário, os "destaques populares", sem dúvida, irão alarmar Nicholas Carr, cujo novo livro, "The Shallows", argumenta que o fato de "ler por cima", a lincagem e a multitarefa compulsiva da nossa leitura na tela está minando o foco profundo e imersivo que definiu a cultura do livro ao longo dos séculos.

Com os "destaques populares", mesmo quando conseguimos nos desconectar do Twitter e desligar a televisão e sentar para ler um bom livro, haverá um coro de leitores virando as páginas junto conosco, destacando as partes boas. Em pouco tempo, nós provavelmente seremos capaz de nos encontrar com esses colegas leitores, compartilhar histórias com eles. Combate à solidão? David Foster Wallace viu apenas a metade.

O argumento de Carr é que essas distrações vêm com um alto custo, e a publicação de seu livro coincide com artigos em diversas publicações – incluindo o New York Times – que relatam estudos científicos que mostram como a multitarefa prejudica a nossa concentração.

Até agora, a neurociência da multitarefa se inclinou a seguir um padrão previsível. Os cientistas pegam alguns sujeitos para testes e fazem-nos ver alguns quadrados coloridos dançando na tela de um laboratório em algum lugar. Então, eles determinam que a multitarefa deixa-lhes um pouco menos capazes de se concentrar. Um estudo publicado no início deste mês constatou que multitaskers [pessoas que fazem multitarefas] mais graves tiveram um desempenho entre 10% a 20% pior na maioria dos testes do que os multitaskers mais suaves.

Esses estudos, sem dúvida, indicam alguma coisa – ninguém acredita sinceramente ser melhor em concentração quando muda constantemente entre múltiplas atividades –, mas não fazem sentido como um indicador cultural sem medir o que ganhamos com a multitarefa.

Graças ao e-mail, ao Twitter e à blogosfera, eu troco informações regularmente com centenas de pessoas em um único dia: agendamento de reuniões, troca de fofocas políticas, edição de um capítulo de livro, planejamento de férias familiares, leitura de conteúdo tecnológico. Como muitas dessas trocas poderiam acontecer se eu estivesse limitado exclusivamente às tecnologias do telefone, dos correios e do encontro face a face? Eu suspeito que o número seria uma pequena fração do meu índice atual.

Não tenho dúvida de que eu estou um pouco menos concentrado nessas interações, mas, francamente, grande parte do que fazemos durante o dia não requer os nossos plenos poderes de concentração. Mesmo os cientistas de foguetes espaciais não fazem ciência de foguete espacial durante todo o dia.

Para o seu crédito, Carr admite prontamente esse argumento da eficiência. Sua preocupação é o que acontece ao pensamento de alto nível quando a cultura migra da página para a tela. Na medida em que seu argumento é um lembrete a todos nós para que nos afastemos da tela de vez em quando e pensemos em um ambiente mais sereno, essa é uma contribuição valiosa.

Mas o argumento de Carr é mais ambicioso do que isso: a "mente linear e literária" que esteve no "centro da arte, da ciência e da sociedade" ameaça se tornar a "mente de ontem", com consequências devastadoras para a nossa cultura. Aqui, também, eu acho que as preocupações são exageradas, embora por razões levemente diferentes.

Presumivelmente, as primeiras vítimas do pensamento "superficial" deveriam ter aparecido nas linhas de frente da tecnologia mundial, na qual os participantes passaram a maior parte do tempo no espaço hiperconectado da tela. E no entanto a sofisticação e a nuance dos comentários sobre a mídia cresceram dramaticamente nos últimos 15 anos. O ensaio original de Carr, publicado no The Atlantic – juntamente com o relato mais otimista de Clay Shirky, o que o levou ao livro "Cognitive Surplus" – foi intensamente discutido em toda a Internet quando ele apareceu pela primeira vez como artigo, e ambos os livros parecem estar gerando o mesmo nível de análise e de envolvimento nos formatos longos.

As ferramentas intelectuais para avaliar a mídia – que uma vez eram a província de acadêmicos e críticos profissionais – são agora muito mais acessíveis para as massas. O número de pessoas que têm escrito uma resposta ponderada para o ensaio de Carr – e, melhor ainda, publicando-a on-line – com certeza supera o número de pessoas que escreveram publicamente sobre o "Understanding Media" [Os meios de comunicação como extensão do homem, na versão brasileira], de Marshall McLuhan, em 1964.

Carr passa grande parte da introdução de seu livro convencendo-nos que as novas formas de mídia alteram a forma como o cérebro funciona, o que eu suspeito que a maioria de seus leitores aceitaram há muito tempo como uma verdade óbvia. A questão não é se os nossos cérebros estão sendo alterados. (É claro que novas experiências mudam o seu cérebro – isso é o que é uma experiência, em um nível básico). A questão é se as recompensas da mudança valem todo o investimento.

O problema com o modelo de Carr é a sua reverência inquestionável pela lenta contemplação da leitura profunda. Para que a sociedade avance como ela tem avançado desde Gutenberg, defende ele, precisamos do espaço quieto e solitário do livro. No entanto, muitas grandes ideias que avançaram a cultura nos últimos séculos surgiram a partir de um espaço mais conectivo, na colisão de visões de mundo e sensibilidades diferentes, de metáforas e campos de especialização diferentes. (O próprio Gutemberg pegou emprestada a ideia da sua imprensa da prensa dos vinhateiros da Renânia, como observa Carr.)

Não é por acaso que a maioria das grandes inovações científicas e tecnológicas ao longo do último milênio ocorreu em centros urbanos multitudinários e distrativos. A própria página impressa encorajou essas conexões múltiplas, ao permitir que as ideias fossem armazenadas e compartilhadas e circulassem mais eficientemente. Pode-se até argumentar que o Iluminismo dependeu mais do intercâmbio de ideias do que da leitura solitária e profundamente focada.

A contemplação silenciosa, em parte, levou a importantes pensamentos. Mas não se pode negar que as boas ideias também surgem em redes.

Sim, estamos um pouco menos concentrados, graças ao estímulo elétrico da tela. Sim, estamos lendo narrativas e discussões um pouco menos longas do que tínhamos há 50 anos, embora o Kindle e o iPad podem muito bem mudar isso. Esses são os custos, na verdade. Mas e o outro lado da história? Estamos lendo mais textos, escrevendo muito mais frequentemente do que quando estávamos no auge da televisão.

E a velocidade com a qual podemos acompanhar o rastro de uma ideia, ou descobrir novas perspectivas sobre um problema, aumentou em vários graus de magnitude. Estamos levemente menos concentrados e exponencialmente mais conectados. Essa é uma troca que todos nós deveríamos estar felizes por fazer.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=33733