sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Luta unificada pela melhoria da qualidade da educação do Brasil

Intelectuais e sociedade civil precisam se envolver na luta pela conquista da qualidade da educação para que essa se torne uma política de Estado e não se altere conforme o partido político no governo. A opinião é de Isaac Roitman, autor do livro 'A Urgência da Educação', lançado este ano em parceria com Mozart Neves Ramos, fruto de seus artigos publicados no Correio Braziliense.


Em uma alusão ao título de sua obra, Roitman vê necessidade de, pelo menos, começar a melhorar a qualidade da educação, principalmente a do ensino básico, considerado precário e onde reside o gargalo educacional do Brasil. "Se não começarmos, é possível chegarmos a uma situação irreversível", declara o autor, também coordenador do Grupo de Trabalho da Educação da SBPC, criado em 2008, com o objetivo de estimular a instituição de uma política contínua e de aprimoramento da educação.

Com longa experiência na área acadêmica, Roitman diz notar deficiência de estudantes do ensino médio que entram nas universidades "tolhidos" das suas principais vocações intelectuais. "Toda vontade criativa que tem em uma criança é bloqueada no ensino básico", disse o professor aposentado que lecionou nas universidades federais do Rio de Janeiro e de Brasília, em entrevista ao Programa Tirando de Letra da UnBTV. Dentre outras ocupações, Roitman foi reitor da Universidade de Mogi das Cruzes e diretor de avaliação de cursos da Capes.

Efeitos automáticos nas universidades - Conforme entende Roitman, se começar a melhorar o ensino base certamente haverá efeitos positivos no ensino superior. "Não haverá bons pesquisadores sem uma formação excelente básica e uma excelente formação do ensino superior", avalia.

Para Roitman, essa é uma necessidade que precisa ser colocada na pauta de prioridades do Brasil. "Se não fizermos isso, o nosso futuro será comprometido", declara ele.

Problemas crônicos - Segundo ele recorda, o problema da baixa qualidade da educação brasileira é histórico, embora planos de educação a cada ano são criados, recriados e reelaborados.

Nesse caso, Roitman disse que na década de 1930 já havia um grupo de 21 intelectuais preocupados com a qualidade da educação brasileira, dentre os quais Cecília Meireles (1901-1964) e Fernando Azevedo (1894-1974), que fundaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. O mesmo ocorreu três décadas depois, quando em 1959 um universo de 200 intelectuais, dentre eles Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil, e Anísio Spínola Teixeira (1900-1971), foram à luta pela melhoria da educação nacional.  Em nenhum dos casos, ele lamenta, houve sucesso.

"Se lermos o primeiro manifesto de 1932 e o de 1959, parece que foram escritos na semana passada. Todos os problemas estão colocados, os diagnósticos são muito bem feitos e (igualmente) as soluções. Ai vem a pergunta. Por que nada acontece?", questiona.

"Vou falar algo que, talvez, intelectuais não gostem: nada aconteceu porque intelectual não faz revolução; intelectuais pensam, fazem diagnósticos e preposições que vão ficar nas prateleiras. É preciso que os intelectuais, juntamente com outros setores da sociedade, pressionem para que a educação seja uma política de Estado", destaca.

Participação da sociedade civil - Roitman destaca a necessidade da participação da sociedade civil nessa luta. "Não adianta os intelectuais e acadêmicos discutirem as coisas com eles mesmos, pois nada vai mudar", diz.

Segundo recomenda Roitman, o Brasil precisa implementar uma meta de qualidade da educação de forma permanente. Ou seja, invariavelmente às mudanças do partido político que assume o governo. "A educação não deve ser um tema partidário. Só assim conseguiremos atingir uma meta de ter uma boa educação, uma base para um povo feliz. Creio que isso é possível, se não acreditasse nisso iria me recolher aos meus próprios pensamentos", filosofa o autor.

Na entrevista à UnBTV, Roitman destaca, ainda, o papel da SBPC na luta pela educação e pela defesa de investimentos em ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Brasil em curto e longo prazos.

(Viviane Monteiro - Jornal da Ciência)

Para ouvir a entrevista na íntegra acesse os links:
http://www.youtube.com/watch?v=ENOWWIjuZEE
http://www.youtube.com/watch?v=tQCPwPIjmUU
http://www.youtube.com/watch?v=7cxiQ18YYew

Fonte:  JC e-mail 4411
Data: 22 de Dezembro de 2011